terça-feira, 18 de março de 2008

Coisas do Banco Irritaú e da Financeira "Não Faz Assim Comigo Não"

No final do ano passado acentuou-se-me o mau influxo das estrelas... Bastante vulnerável a créditos fáceis, tomei emprestado 240 maravedis ("Pequei, senhor, mas não porque hei pecado..."). Fui seduzido pela financeira "Não Faz Assim Comigo Não", que é uma empresa do Banco Irritaú. Na conversa com a funcionária ficou estabelecido que eu pagaria 12,5% de juros ao mês mais uma taxa de processamento de fatura. Só me foram apresentadas essas duas taxas.

A atendente me passou o valor da parcela, confiei na sua boa fé... Ela não fez as contas comigo nem eu as fiz com ela. Confesso que aí falhei. Entretanto, eu precisava do dinheiro, e os vendedores de créditos fáceis, se aproveitando de situação psicológica desfavorável, criam um ambiente de "bloqueio às ações perscrutadoras", ou seja, dão um "jeitinho" pra que não nos alertemos, pra que não questionemos... Ora pelo corre-corre que há no expediente bancário, ora pelo modo superficial e enganoso com que passam as informações... Quando cheguei em casa, com calma, fiz as contas. Somei os juros e a taxa acordados, e o valor extrapolou o que combináramos...

Fui ao banco solicitar cobrança justa, e descobri, ainda, que eles calcularam os juros sobre um valor que eu não tinha sacado: 298 maravedis. E descobri ainda mais que eles embutiram, sob a orquestra do silêncio, uma porção de juros e taxas, as quais não havíamos combinado. Expus a situação à atendente. "Brades com ela!", sugeriu meu tino. Mas não, mantive a calma. E ouvi da moça que nesse tipo de empréstimo costuma se cobrar essas, aquelas e aqueloutras taxas... Respondi à moçoila que seria ótimo se eles me tivessem avisado antes, porque certamente eu pensaria um milhão de vezes (nesse ponto fiquei com medo de ela cobrar juros sobre esse milhão) antes de tomar o empréstimo...

Inquiri, também, à rapariga em flor de onde é que ele tiraram esse valor de 298 maravedis inventados (imaginação feita pra você)... A moça desconversou. Exigi falar com o gerente. Estava viajando. Então desafiei a funcionária a me mostrar o contrato, assinado por mim, em que eu consentiria em pagar aquela avalanche de juros e taxas. E que se ela mo apresentasse, de bom grado eu pagaria o que lá estivesse estipulado. Nada de contrato. Ela julgou que eu estava sendo impertinente. E o que ela fez? Empurrou-me um 0800, que, para honrar a tradição, nada resolveu.

Pensei em ir ao Procon. É o que se faz nessas horas, não é verdade? É certo que eles reduziriam, amainariam, o polvo-centopéico, o monstro tarifacionário. Porém quando fiquei sabendo do lucro anual do Banco Irritaú, coisa de mais de oito bilhões de maravedis, grande parte oriunda de juros e taxas abusivas e escorchantes, caí na Real; misturei meu lado socialista com o meu lado matemático, e deliberei: "Eu estava disposto a pagar X, eles querem Y, então não vou pagar nem X nem Y. Dessa forma eu não compromento meu orçamento, não sustento banqueiros e ainda dou azos e asas à filosofia da inadimplência." Sempre admirei em mim esse meu bom senso em resolver questões...

Dinamitar a ilha de Manhattan não podemos, está certo o poeta de Itabira, mas podemos explodir a ganância dos banqueiros, e convidá-los a explorar outras gentes (porque convencê-los a não explorar é difícil), pessoas de nações mais poderosas. Os que gastam fortunas nos cassinos, os que saracoteiam com prostitutas luxuosas, os que protegem "os frangos sob cristais infrangíveis" enquanto a fome se alastra pelo mundo e os "homens exercem seus podres poderes"...

Pois bem, voltemos à filosofia da inadimplência. A oferta de créditos nada mais é do que a multiplicação, nada milagrosa, dos peixes. Fartura para banqueiros, que lucram exacerbadamente com juros e taxas escorchantes sobre os empréstimos concedidos. Eles se aproveitam da situação psicossocial dos indivíduos e da nação, sobretudo as emergentes, que, na maioria das vezes, fomentam bancos em detrimento ao bem-estar social. Precisamos quebrar esse contrato torpe, e colocar uma rolha no gargalo do lucro dos bancos. Para isso, basta que sejamos inadimplentes, os indivíduos e a nação explorada; e, dessa forma, mataremos a galinha dos ovos de ouro do capitalismo.

"Mas se eu não pagar, meu nome fica sujo, vai pro SPC..." Ótimo! Comemore! Fazendo parte da famosa lista, qual a punição? Não se abre crediário, não se compra a prazo... Maravilha, você deixará de pagar juros sobre prestações infinitas, e como poderá comprar apenas à vista, controlará o seu espírito consumista, administrará melhor o seu orçamento, distribuirá os seus rendimentos de maneira mais racional. Você, finalmente, não vai alimentar de juros e mais juros lojas coma as Casa Barriga Cheia ou a Magazine Vem Cá Luiza...

Percebeu as vantagens? E quanto mais pessoas darem calotes nos bancos, tanto mais os aniquilaremos, a eles e a sua ganância. Ao invés da "fuga de capitais", promoveremos a fuga dos banqueiros. Se a taxa de inadimplência da pessoa física (que hoje está em 7%, creio) subir para 90%, isso representará um retumbante desfalque no lucro dos bancos e melhor poder aquisitivo da massa de devedores. Essa gente vai aquecer a economia interna. O dinheiro que iria para os bancos é posto em circulação de modo mais responsável, e atendendo aos interesses do mercado interno, sobretudo na esfera dos pequenos e médios negócios. É claro que aí precisaria entrar a mão do Estado, criando barreiras às ações dos bancos e leis punitivas, ou restringidoras, às grandes redes e lojas do comércio (para que os adimplentes não se seduzam por atrativos falsos, e desencadeadores de dívidas, e consequente recessão econônima individual...)

De todo modo, se o Estado não intervier, sejamos também inadimplentes com o grande comércio (apenas com o grande comércio, jamais com o pequeno e médio!), pois desse modo ele será forçado a reduzir os juros, por imposição dos consumidores... O que eu quero dizer é que nós, o povo, precisamos forçar políticas anti-juros, pela nossa vontade soberana. Precisamos contaminar o Estado. Apontar-lhe o caminho para o bem da nação. Mostrar-lhe que é muito mais importante fomentar a educação, a cultura, a economia interna e projetos sociais mais robustos, do que distribuir as muitas cédulas aos donos da moeda nº 1 do Tio Patinhas.

Está claro, é necessário afugentar bancos, moderar ganâncias, e construir escolas e indústrias, para que se promova um governo de fato independente e uma nação deveras gigante. Sejamos, pois, docemente inadimplentes.

Somente com a inadimplência em grande escala, que forme uma cadeia eliminadora de juros, é que o mercado deixará de nos controlar para ser controlado por nós, o povo.

3 comentário(s):

Anderson Augusto Soares disse...

Sobre o mesmo assunto, agora em verso

É insignificante o meu salário,
E bem desajustado o orçamento.
E qual a razão desse meu lamento?
O feio monstro tarifacionário!

E pagar taxa até por pensamento?
E pagar juros em qualquer horário?
Justo quem nunca fui tão perdulário,
Tanta tarifação eu não aguento!

Não há vocábulo onomatopéico
Que traduza meus modos descontentes
E este meu propulsar supra-colérico

E este meu arrolar de boas mentes..
Na luta contra o polvo-centopéico
Sejamos docemente inadimplentes!

Simône Silva disse...

Olá passei para te deixa um oi e dizer que vc escreve muito bem...

Anderson Augusto Soares disse...

O professor de economia, Carlos Eduardo Marotta Peters, comentou atráves de e-mail. Como ele é especialista, julguei importante transcrever aqui:

"Caro Anderson,
Seu pensamento não foi simplório. Vc captou a essência do mercado financeiro e do sistema bancário brasileiro. É realmente um sistema que arranca dinheiro das pessoas nos momentos mais delicados, seduzindo-as com conversa fiada. Eu não mudaria nada no seu texto. O economês ia atrapalhar a fluidez das idéias. Vc pode se achar meio romântico, mas os cabeças de gráfico da revista Veja também o são. Mas eles são românticos hipócritas, daqueles que têm comprometimento ideológico com o grande capital e a grande indústria. O liberalismo selvagem é mais inviável do que sua utopia... Como é que a gente pode explicar, por exemplo, o seguinte paradoxo: a economia vai bem, a dívida está controlada, mas nunca (pelo menos desde que nos transformamos numa nação industrial) o fosso social foi tão largo e a violência tão disseminada. Crescimento não é sinal de desenvolvimento e o nosso crescimento só alimenta as antigas aves de rapina, que se recusam a dividir até os ossos da carcaça.
Um abraço
Carlos Eduardo"