Minha primeira missão do dia foi tentar desamarrotar a única camisa branca disponível. Nela, a estampa com Che Chevara. Depois tomei um banho, fiz um café e lembrei-me que estava atrasado para a atividade do domingo.
Apressado, lancei-me à rua. Comia maçã pensando que a marcha já poderia estar em curso. Cheguei à praça central da cidade pouco mais das oito horas da manhã. Centenas de pessoas faziam um "trenzinho". No meio desse "grande" trenzinho, havia um menor, composto por crianças do ensino fundamental da escola Leonísia de Castro. (O sol já mostrava o seu vigor.)
Alguns participantes carregavam faixas e a organização distribuía fitas brancas. O motivo da reunião era a Marcha Mundial pela Paz e a Não-Violência, um evento que começou na Nova Zelândia, na sexta-feira (2) - Dia Internacional da Não-Violência e dia de nascimento de Mahatma Gandhi - e que se encerra no dia 2 de janeiro de 2010, na Argentina.
Durante esse tempo, os promotores da paz percorrem o mundo (os seis continentes, mais de 100 países) e milhares de municípios fazem eventos. É o caso de Araçatuba, que participa da iniciativa com a marcha organizada pela Prefeitura e pelo Movimento Humanista Internacional, com o apoio de igrejas, associações e a sociedade civil.
Do coretoDepois do trenzinho - uma forma de aquecimento para a caminhada - algumas autoridades fizeram breves pronunciamentos no coreto da praça Rui Barbosa. O representante da "Marcha" no Estado de São Paulo e um dos coordenadores do Movimento Humanista esteve presente. Seu nome é Marcos Salgado. Ele parabenizou o prefeito Cido Sério pela adesão. "Araçatuba está dando sua mensagem ao mundo, num sinal de que quer a paz".
O secretário municipal de Cultura, Hélio Consolaro, lembrou que a busca pela paz não se restringe apenas no âmbito das guerras mundiais. "Nós precisamos resolver os conflitos pessoais, como brigas que acontecem entre marido e mulher, irmãos ou colegas de trabalho".
O prefeito resumiu o espírito da marcha dizendo que o evento é uma forma de "transformar cada ser humano em um agente da paz". Ele destacou ainda a necessidade do respeito à diversidade e às diferentes formas de pensamento.
A caminhadaDepois do "Pai Nosso", puxado por Cidinha Lacerda, secretária de Ação Social, a caminhada teve início. Seguiu pela rua Prudente de Morais, tomou a Avenida dos Araçás em direção à rotatória Tosca de Castro Kohl, onde há um monumento em homenagem à colônia japonesa: o Tori.

Nenhuma nuvenzinha sequer atreveu-se a colocar-se entre o sol imponente e a cidade.
Culto ecumênico e assinatura formalNo Tori, representantes de religiões cristãs e de cunho oriental fizeram um culto ecumênico. Todos reforçaram o compromisso com os preceitos da marcha. Cido Sério citou trecho da carta em que o apóstolo Paulo fala do amor aos Coríntios ("Ainda que eu falasse a língua dos anjos, sem amor eu nada seria").

Em seguida, o prefeito assinou um documento que pede o fim da produção de armas nucleares até 2020, conforme o "Protocolo de Hiroshima e Nagasaki".
Esse documento será entregue, no ano que vem, para representantes da ONU (Organização das Nações Unidas).
Chefes do Executivo de cidades do mundo todo têm assinado a proposta, motivada pelo movimento "Prefeitos pela Paz", iniciado por Tadatoshi Akiba, prefeito de Hisoshima.
Na ocasião, a presidente da Câmara dos Vereadores de Araçatuba, Edna Flor, Cidinha e demais secretários municipais assinaram um termo de adesão à Marcha Mundial.
Quem assinou a lista concorda com os seguintes pontos: desarmamento nuclear a nível mundial, retirada imediata das tropas invasoras dos territórios ocupados, redução progressiva e proporcional do armamento convencional, assinatura de tratados de não agressão entre países e renúncia dos governos ao uso da guerra como meio de resolução de conflitos.
O evento em Araçatuba terminou com uma apresentação de taikos (tambores japoneses). O grupo Ryuumei Wadaiko, executou duas músicas. A primeiras delas, segudo do André Miyashita, um dos músicos, dizia de "ventos por entre as montanhas". A exibição prendeu a atenção de todos. As crianças e jovens do grupo foram aplaudidos entusiasticamente debaixo do sol soberano.

A cerimônia termina. Ao final, fomos cada qual pra sua casa. Eu com a camisa amarrotada.
No mesmo dia em que Mercedes Sosa partiu definitivamente, os araçatubenses pediram a Deus que a dor, a guerra, a mentira... Que a tudo isso não sejamos indiferentes.
Fotos: Anderson Augusto Soares